#27 A vida pode ser mais que uma mini-pizza.

A vida deveria ser como uma pizza, gostosa, recheada e vir ao menos com oito fatias. Pelo menos um brotinho que se possa dividir por quatro. Mas pode acontecer de acordarmos um dia e percebermos que a vida anda meio mini pizza. Pior,  daquelas pequenas de mercado com massa vagabunda, pouco molho de tomate e aquele queijinho bem mirrado.

A vida fica neste estado “mini pizza” quando esta resumida a uma coisa só. Seja a rotina limitada ao trabalho, naquele constante acordar, levantar, trabalhar, dormir com pequenas escapadas para ir, vir e comer, enfim, uma chatice! Ou nosso pequenino pedaço de massa pode estar resumido a um relacionamento, quando o outro se torna centro absoluto da nossa atenção e viver se restringe a atender necessidades que não são as nossas, seja o outro um amigo, namorado ou parente ou até mesmo o chefe (quem nunca?). São apenas dois exemplos, mas não é tão incomum nos percebermos “em estado de mini pizza”, acontece às vezes.

Viver assim é uma situação um tanto desestabilizada e  que para se retorne a algum equilíbrio é preciso tentar ampliar os horizontes da nossa mini-pizza. Primeiramente aumentando o número de fatias, acrescentando novas atividades, amigos, coisas que gostamos de fazer e que tornem o nosso viver  mais interessante e cheio de pedacinhos que nos completem.

Bom mesmo é quando nos damos conta que o conjunto de fatias ficou recheado e nossa massa se tornou  crocante. Não importa se temos, quatro, oito ou dezesseis fatias desde que cada uma delas tenha sua importância na sua função de nos tornar nossa vida-pizza plena de recheio e gostosura.

O primeiro grande passo  é nos colocarmos dispostos a deixar nossa massa se expandir procurando entre as fatias e sabores  os que melhor nos completam. E para descobrimos qual o tamanho ideal, numero de fatias e sabor do recheio que mais nos apetece, o jeito mais simples é experimentar entre as várias combinações disponíveis e por que não arriscando algumas outras mais inusitadas. Não há limites para as pizzas ou para a vida. Portanto, não tem desculpa para continuar a viver uma vida de mini-pizza, só é preciso alguma coragem e disposição para experimentar e tempo para ver a massa crescer.

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#26 Útil para quem?

Olha que coisa louca: Você já parou para pensar que a sua disponibilidade incontrolável para ajudar, ou mudar a vida do outro pode ser uma necessidade sua (e apenas sua)?

A vida do outro não é a sua vida, então o que pode parecer quebrado e torto aos seus olhos provavelmente pode estar funcionando perfeitamente bem para o outro, sem demandar a menor interferência dos seus superpoderes do altruísmo desgovernado.

O outro pode querer ajuda para algumas coisas às vezes, mas existe um limite onde se pode ferir a autonomia das escolhas e decisões que são apenas do outro e onde a sua disponibilidade já não tem mais lugar.

Aliás, vamos refletir um pouco mais sobre este desejo louco por ser útil aos outros, ou a alguém específico. Será que é muito complicado só viver de boas, deixando-se gostar apenas por ser quem você é no lugar de viver escravizado pela vontade de ser útil ou adequado, ou o mais bacana para os outros sempre?

#25 Quem gosta de migalha é pomba.

A autoestima tem tamanho? Provavelmente ela varia ao longo dos dias, das horas. Talvez uma boa medida seja a quantidade de migalhas que se anda aceitando por carência, tédio ou falta do que fazer mesmo. Mas é o seguinte – quem gosta mesmo de migalha é pomba que aceita qualquer grãozinho de milho murcho só para sentir a barriga cheia.

Fome de amor, carinho e aceitação dói, mas só ter a barriguinha cheia com migalhas é pouco. Afinal bocadinhos de qualquer coisa não fazem de ninguém pleno.  Entendo que de grão em grão a galinha enche o papo. Mas pessoas não são galinhas e sentir na alma uma completude de sentimentos é mais complicado que ter o papo cheio de quirera velha.

Cada um sabe de si e aceita o que dá conta. Pode parecer um tanto orgulhoso recusar algumas migalhas que a vida ou pessoas nos colocam. Há situações onde se mostram quase irrecusáveis, seja pelo tamanho da nossa fome ou pelas boas intenções aparentes que vem por trás destas migalhas. Mas é preciso engolir seco, esquecer a fome e dizer não. Por que aceitar o inaceitável rouba pedacinhos da autoestima que custa tanto para ser construída e consolidada.

É preciso reaprender que raspas e restos não interessam e que as coisas boas para nós não vem de grão em grão, mas sim de banquete. Num banquete pode-se escolher entre várias opções, pode-se recusar também, sem que o que dispensamos nos faça falta. O banquete nos mostra várias oportunidades e caminhos e nos é oferecido para que nos transborde diferente das migalhas que mal nos saciam um pouquinho da fome.

Quando se consolida a autoestima é possível entender que o banquete quem em primeiro lugar nos oferece somos nós e cheios de amor próprio nos permitimos sem medo da fome recusar as migalhas e restos que não nos fazem plenos, e que muitas vezes vão mesmo é nos fazer muito mal.

É preciso estar atento às migalhas que por desatenção e carência estamos nos permitindo engolir. Milho velho azeda e dá uma dor de barriga danada. É preciso  erguer a cabeça e lembrar que as migalhas só interessam às pombas. O tamanho da autoestima cada um constrói e preenche com o que tem dentro de si. Para que ela cresça não é possível sobreviver aceitando migalhinhas duvidosas que não saciam nem as necessidades mais básicas da alma.

#24 – Como vai seu Bicho Papão?

Todos têm um Bicho Papão para chamar de seu. Alguns  são bem feios, mas não machucam tanto, outros mais bonitinhos e cruéis, mas olhar para eles sempre provoca algo de incômodo e dor.

É possível passar uma vida ignorando o Bicho Papão particular, mas ele vive em simbiose, grudado em alguma parte nossa e uma hora ou outra aparece. Ainda que seja apenas de relance ele se fará notar em alguma ocasião.

Encarar o Bicho Papão pode tornar-se inevitável em algumas ocasiões da vida. E  nota-se que ele está ali e veio para ficar, porque ele é parte do que sempre fomos. Isto nos provoca incômodo, gera uma antipatia e aquele desejo de que o bicho desapareça. Mas ele não vai embora, quanto mais se tenta fazê-lo sumir, com maior força ele gruda em nós e muitas vezes ele cresce e se torna mais feio.

Uma opção é fingir que o Bicho Papão nunca existiu  e relegá-lo ao esquecimento, criando distrações para fingir que ele não está ali. Mas ele é resistente e fica de prontidão encarando com seus olhos grandes, esbugalhados e assustadores em todas as oportunidades.

Outra possibilidade é enterrá-lo bem fundo, tentando sufocar sua presença com a poeira do esquecimento. No entanto, hora ou outra se fará necessária uma faxina na vida, e sob tanto pó o Bicho Papão estará aguardando, forte e cevado, por que o tempo e o descuido serviram como seus alimentos mais nutritivos. Assim ele despertará cheio de força e  vencerá por nocaute ainda no primeiro round.

Para lidar com o Bicho Papão é preciso um fortalecimento voluntário que só se faz possível encarando-o olho no olho. E isto exige entrega e coragem. É fundamental aceitar que o bicho existe e é parte do que somos. O próximo passo é afrontá-lo  em todas as oportunidades. Mais que isso, é preciso promover os embates com o bicho, seja na terapia ou autoanalise ou numa atividade física. É fundamental escolher a melhor maneira de lidar com o bicho e muitas vezes poderá ser mais de uma opção. É necessário colocar-se disposto a fitar o Bicho Papão até fundo dos olhos. Que aconteça aos poucos, mas com frequência, por que nosso bicho está ali fazendo parte de cada um de nós.

Um dos melhores jeitos para se lidar com o Bicho Papão é percebê-lo, aceita-lo e encará-lo com o máximo de bravura possível. Aos poucos ir criando uma intimidade,  até uma certa camaradagem. No início será puro desconforto, mas com o tempo o bicho se tornará quase familiar.

O perigo de enterrar e ignorar o Bicho Papão é que ele é guloso, come por dentro, nos consome o melhor que há em nós. E o há um grande risco de que quando percebermos o buraco ele tenha se tornado muito grande. Por mais feio e amedrontador que seja nosso Bicho Papão, é estratégico aprender a encará-lo sob o ângulo certo, assim aos poucos ele não se mostrará assim tão horripilante.

 

#23- De onde viemos e para onde podemos ir.

É muito louco identificar coisas suas em alguém como um filho recém-nascido que chega com as suas orelhas ou traços de personalidade que aos poucos são observados no rebento enquanto ele cresce e se desenvolve.

Também é interessante perceber em nós a mistura que resultou das características dos nossos pais, irmãos ou avós.  O dedo torto do pé que herdamos do avô, ou os olhos da mãe, o sorriso do nosso pai. Mas tem coisas nossas que não temos a mínima ideia de onde vieram. Seja por sermos  um tanto alheios às nossas famílias, ou mesmo por que a nossas história no privou de saber, seja pela perda precoce de um dos pais ou por que de certa forma este parente não pode fazer parte das nossas vidas.

Esta identificação é mais ou menos importante dependendo da pessoa, mas sempre acaba dando aquela “pesada” em determinados momentos da vida. Que venha como fruto de curiosidade ou pela necessidade de autoconhecimento. Ou até mesmo pra nos ajudar a entender alguns comportamentos nossos ou ainda para saber características  da nossa genética que poderiam nos prejudicar ou aos nossos descendentes.

Por vezes é possível que nos identifiquemos com características ou comportamentos que mais que nos desagradarem, nos assustam um tanto. Em certas ocasiões é possível observar que alguns traços nossos são resultado de comportamento que nossos parentes próximos exibiram ao longo de nossa história e que nos marcaram para sempre.

Esta identificação pode nos produzir ao mesmo tempo conforto e repulsa. Orgulha-nos e nos envergonha simultaneamente e é uma parte nossa difícil de trabalhar. Mas está ali no espelho todos os dias, como o oráculo nos afirmando “decifra-me ou te devoro” para tantas situações cotidianas.

Acredito que não exista uma receita para lidar com isso. Há características que precisamos apenas identificar, aceitar e que talvez um dia sejam possíveis de transcender e desconstruir. Por outro lado há outras coisas que são boas, interessantes e que quando reconhecemos nos fazem sentir como sendo parte de algo ou pertencendo a algum lugar. Para estas podemos nos liberar, sentir o coração acalentado e sorrir. Sejam vindas de nossos pais, irmãos ou avós ou sejam características que passamos para nossos filhos. Não tem jeito, com algo nos identificaremos. Uma covinha, o tamanho dos pés, um sorriso, o gênio ruim ou a teimosia desenfreada.

Algo dos outros herdamos e algo para os nossos transmitiremos, mas na loteria da existência não é possível prever o que. Apenas percebemos quando estamos dispostos. E o que iremos fazer com isso é decisão e trabalho de cada um.

#22 – Sobre aceitar os “nãos” que a vida nos dá.

Encantar-se com alguém ou por algo é das coisas mais bonitas da vida. Coloca brilho nos olhos, viço na pele, calor no coração. Que coisa boa é estar encantado, rapidamente nos emendamos e remendamos na nossa melhor versão, por que encantados, nos sentimos plenos, preenchidos com algo de bom para retornar ao universo, às pessoas a alguém.

E assim, leves e inteiros oferecemos este algo bom na nossa bandeja de prata mais reluzente, nossa amizade, bondade, ou o nosso coração inteirinho, pintado no tom de vermelho mais vistoso da palheta de cores. O que temos para oferecer é o nosso melhor e oferecemos com entrega.

Mas pode acontecer de o mundo, a situação ou a pessoa não estarem assim tão dispostos a aceitar, por que o nosso melhor pode não ser o melhor, naquele momento, para aquela pessoa ou situação. Para nós é a coisa mais bonita, querida e plena. Mas é assim apenas para nós. Como oferecemos com muita entrega, a rejeição da vida dói muito e apesar disso só nos resta acalmar o espírito e aceitar o não que a vida, o universo ou alguém tem para nós naquele momento.

Ouvir os “nãos” da vida é ruim, dá revolta, sentimento de inadequação e nos leva ao questionamento de: “onde foi que eu errei?”. Mas tá aí, não tem erro ou acerto. Assim como em tantas situações precisamos aprender a dizer não, mais ainda precisamos nos abrir a aceitar e ouvir os tantos nãos que a vida nos coloca. Não significa que por que nossa melhor versão remendada e costurada aqui e agora não se encaixou em alguma situação ou para alguém, que ela não seja realmente boa ou digna de valor. Não é por que entregamos o coração de bandeja em alguma situação onde ele foi rejeitado, que o vermelho perfeito de que o pintamos tenha agora menos brilho.

Na nossa história para muitas coisas teremos que aceitar o não e isso não significa que sejamos menos por isso. Nossa melhor versão sempre tem que nos bastar no momento. O encantamento pode dar uma “broxada” e esta é a hora onde devemos desviar o olhar, nos centrarmos e voltar os olhos na busca de novas coisas que nos encantem e  tragam novamente o brilho. As pequenas rachaduras na alma e no coração a gente só cola com encantamento e amor, principalmente com o amor próprio.

 

#21 – A vida às vezes é puro eco.

As faxinas podem ser imprescindíveis em alguns períodos da vida. Podem levar dias, meses ou alguns anos até nos vermos livres de todo o lixo acumulado ao longo de um tempo. A limpeza pode acontecer com algum grau de organização, por exemplo, quando separamos a vida por cômodos, primeiro a sala, depois o quarto. Mas as mudanças podem vir com tanta força e de uma vez que a faxina acontece no meio do caos, quase como um tsunami de gente na Rua 25 de março em véspera de natal correndo com enormes sacolas de lixo para longe de nós.

Esta limpeza leva embora coisas que não servem mais, por que nunca foram nossas, mas por um tempo fizeram parte das nossas vidas por que nos identificávamos e nos serviam como se nos pertencessem. De repente, faxinando o quarto, percebemos que aquela cama fofinha era de outra pessoa e agora, apesar da limpeza nos vemos dormindo no chão e em um primeiro momento isto pode ser extremamente desconfortável. Mas encarar este desconforto é a única maneira de começarmos aos poucos a construir nossa própria cama. Neste processo às vezes podemos por algum tempo trazer para o nosso quarto, outra cama de outra pessoa, que pode até ser mais gostosa que a que colocamos para fora, mas ainda assim não é a nossa cama, e podemos voltar a ter que dormir no chão enquanto ainda não conseguimos construir uma cama que seja de fato nossa.

Além de liberarmos nossa casa das coisas que não são nossas, às vezes precisamos colocar para fora sacos de coisas que nos pertenceram por um tempo, mas que já são parte de nós, por que já não nos identificamos mais com elas. Isto pode nos deixar um pouco atordoados com e excesso de vazio. É tanta coisa acumulada que foi embora na faxina que o chão brilha e na sala faz até eco. Pode até mesmo ser um pouco assustador, por que perdemos a identidade do que já fomos um dia. Chega o momento em que sabemos o que já não queremos mais na nossa casa por que conseguimos mandar o lixo embora, mas ainda não temos muita noção de quem somos agora ou sobre o que queremos para nós no futuro.

A vida se torna uma sala vazia e cheia de ecos. Mas talvez seja nos ecos que ouvimos dos nossos passos e de nós mesmos que comecemos timidamente a escutamos qual é lá no fundo a nossa própria voz. Esta voz da essência do que nos tornamos após a limpeza, ouvimos enfim o que para nós é fundamental. Ouvir os ecos é o começo para refazer a nossa casa, móvel por móvel que aos poucos vamos construindo, mas que agora são nossos de verdade e vem aquela sensação de que a vida agora é toda nossa e que podemos moldá-la e decorá-la com a cara que nos agradar mais.

Pensando assim, dormir por um tempo no chão em uma sala  sem móveis pode não ser tão ruim. Quando enfim a cama for a nossa será muito mais cômoda que qualquer outra que poderíamos pegar emprestada num momento de desconforto por o que o que nos restou foi nada além de dormir chão. Abraçar o incômodo e ouvir os ecos de uma casa vazia,sejam talvez os primeiros passos para  dar ouvidos a o que é de verdade nossa própria voz.