#21 – A vida às vezes é puro eco.

As faxinas podem ser imprescindíveis em alguns períodos da vida. Podem levar dias, meses ou alguns anos até nos vermos livres de todo o lixo acumulado ao longo de um tempo. A limpeza pode acontecer com algum grau de organização, por exemplo, quando separamos a vida por cômodos, primeiro a sala, depois o quarto. Mas as mudanças podem vir com tanta força e de uma vez que a faxina acontece no meio do caos, quase como um tsunami de gente na Rua 25 de março em véspera de natal correndo com enormes sacolas de lixo para longe de nós.

Esta limpeza leva embora coisas que não servem mais, por que nunca foram nossas, mas por um tempo fizeram parte das nossas vidas por que nos identificávamos e nos serviam como se nos pertencessem. De repente, faxinando o quarto, percebemos que aquela cama fofinha era de outra pessoa e agora, apesar da limpeza nos vemos dormindo no chão e em um primeiro momento isto pode ser extremamente desconfortável. Mas encarar este desconforto é a única maneira de começarmos aos poucos a construir nossa própria cama. Neste processo às vezes podemos por algum tempo trazer para o nosso quarto, outra cama de outra pessoa, que pode até ser mais gostosa que a que colocamos para fora, mas ainda assim não é a nossa cama, e podemos voltar a ter que dormir no chão enquanto ainda não conseguimos construir uma cama que seja de fato nossa.

Além de liberarmos nossa casa das coisas que não são nossas, às vezes precisamos colocar para fora sacos de coisas que nos pertenceram por um tempo, mas que já são parte de nós, por que já não nos identificamos mais com elas. Isto pode nos deixar um pouco atordoados com e excesso de vazio. É tanta coisa acumulada que foi embora na faxina que o chão brilha e na sala faz até eco. Pode até mesmo ser um pouco assustador, por que perdemos a identidade do que já fomos um dia. Chega o momento em que sabemos o que já não queremos mais na nossa casa por que conseguimos mandar o lixo embora, mas ainda não temos muita noção de quem somos agora ou sobre o que queremos para nós no futuro.

A vida se torna uma sala vazia e cheia de ecos. Mas talvez seja nos ecos que ouvimos dos nossos passos e de nós mesmos que comecemos timidamente a escutamos qual é lá no fundo a nossa própria voz. Esta voz da essência do que nos tornamos após a limpeza, ouvimos enfim o que para nós é fundamental. Ouvir os ecos é o começo para refazer a nossa casa, móvel por móvel que aos poucos vamos construindo, mas que agora são nossos de verdade e vem aquela sensação de que a vida agora é toda nossa e que podemos moldá-la e decorá-la com a cara que nos agradar mais.

Pensando assim, dormir por um tempo no chão em uma sala  sem móveis pode não ser tão ruim. Quando enfim a cama for a nossa será muito mais cômoda que qualquer outra que poderíamos pegar emprestada num momento de desconforto por o que o que nos restou foi nada além de dormir chão. Abraçar o incômodo e ouvir os ecos de uma casa vazia,sejam talvez os primeiros passos para  dar ouvidos a o que é de verdade nossa própria voz.

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